31 de agosto de 2026 · 6 min de leitura
Moldagem de Prismas de Bloco Cerâmico: NBR 16868 na Prática
Entenda as diretrizes da NBR 16868 para moldagem de prismas de alvenaria estrutural em bloco cerâmico, garantindo ensaios confiáveis e segurança da obra.
A resistência à compressão da alvenaria estrutural é um dos parâmetros mais críticos para a segurança e desempenho de uma edificação. No projeto, especificamos os blocos e argamassas, mas a verificação em campo, através dos ensaios de prismas, é o que realmente valida a premissa de cálculo. Um resultado de ensaio abaixo do esperado pode comprometer a estrutura inteira, exigindo reforços caros ou até a demolição de partes da obra. A conformidade com a NBR 16868-1 e NBR 16868-3 é essencial para que esses ensaios reflitam a realidade da obra.
Prismas de Alvenaria Estrutural: O que são e por que moldar corretamente
Prismas são corpos de prova compostos por blocos e argamassa, moldados em canteiro de obra sob as mesmas condições de execução da alvenaria real. Eles simulam trechos da parede e são ensaiados à compressão para determinar a resistência característica da alvenaria (f_k). A moldagem incorreta, a cura inadequada ou o transporte danificado resultam em valores subestimados ou superestimados, levando a decisões equivocadas no controle de qualidade.
A NBR 16868-1:2020 define os requisitos gerais para o projeto de alvenaria estrutural de blocos cerâmicos, e a NBR 16868-3:2020 especifica os procedimentos para o controle tecnológico da execução. É nesta última que encontramos as diretrizes detalhadas para a moldagem, cura e ensaio de prismas.
Tipos de Prismas e Suas Aplicações
Existem dois tipos principais de prismas para ensaio de resistência à compressão, conforme a NBR 16868-3:
- **Prisma Oco:** Utilizado para determinar a resistência à compressão da alvenaria não-armada ou armada sem graute. É composto por blocos cerâmicos assentados com argamassa, com os furos dos blocos vazios.
- **Prisma Cheio:** Empregado quando a alvenaria é grauteada. Após a moldagem com blocos e argamassa, os furos são preenchidos com graute, simulando a condição da alvenaria grauteada em campo.
A escolha do tipo de prisma depende diretamente do sistema estrutural adotado e das especificações do projeto. É crucial que a moldagem de cada tipo siga os requisitos específicos da norma para garantir a representatividade dos resultados.
Procedimento de Moldagem de Prismas Ocos
A moldagem de prismas ocos deve replicar as condições de assentamento da alvenaria. As argamassas utilizadas devem ser as mesmas da obra, com a mesma consistência e traço.
- **Preparo da Base:** A base deve ser plana e nivelada, geralmente uma laje de concreto ou uma chapa metálica rígida, limpa e levemente umedecida para evitar a absorção de água da argamassa.
- **Assentamento da Primeira Fiada:** Aplique a argamassa de assentamento na base, com espessura uniforme, e assente os blocos cerâmicos. A norma sugere que a largura da junta horizontal de argamassa seja entre 8 mm e 12 mm. O número de blocos por prisma deve ser tal que a altura do prisma seja igual ou superior a 2 fiadas e que a relação altura/menor dimensão da seção transversal seja entre 2 e 5. Para blocos cerâmicos, geralmente utiliza-se 3 fiadas.
- **Juntas Verticais:** As juntas verticais devem ser preenchidas conforme o projeto. Em alvenaria não-armada, é comum o preenchimento apenas nas extremidades do bloco. Em alvenaria armada, o preenchimento pode ser total ou parcial, dependendo da necessidade de solidarização dos blocos.
- **Assentamento das Fiadas Subsequentes:** Repita o processo, garantindo o alinhamento e o prumo de cada fiada. As juntas horizontais e verticais devem ter a mesma espessura e preenchimento que as da alvenaria real.
- **Identificação:** Cada prisma deve ser identificado de forma clara e permanente com data de moldagem, local de origem, tipo de bloco, argamassa e número sequencial.
Critério de aceitação de prisma oco: - Resistência à compressão individual do prisma deve ser maior ou igual a 0,85 f_pk. - Média das resistências de um lote de prismas (3 unidades) deve ser maior ou igual a f_pk. - Onde f_pk é a resistência característica à compressão da alvenaria à compressão, especificada em projeto.
Procedimento de Moldagem de Prismas Cheios (Grauteados)
A moldagem de prismas cheios segue os passos dos prismas ocos, mas com a etapa adicional de grauteamento. É fundamental que o graute seja o mesmo utilizado na obra e que a concretagem ocorra na mesma idade da alvenaria.
- **Moldagem da Alvenaria:** Siga os passos de moldagem do prisma oco até a altura desejada (geralmente 3 fiadas, conforme a NBR 16868-3). As juntas horizontais e verticais devem ser executadas com a argamassa de assentamento.
- **Cura Inicial:** Após a montagem dos blocos e argamassa, o prisma deve ser curado por um período mínimo de 24 a 72 horas (dependendo da argamassa e condições climáticas) antes do grauteamento, para que a argamassa adquira resistência suficiente e não haja vazamento do graute.
- **Grauteamento:** Prepare o graute com o traço e consistência definidos em projeto. Preencha os furos dos blocos com o graute, adensando-o cuidadosamente para eliminar vazios. Utilize um vibrador de imersão de pequeno diâmetro ou uma haste metálica para adensamento, evitando danificar os blocos ou a argamassa de assentamento. O graute deve ser lançado em camadas, não excedendo 1,50 m de altura, ou conforme especificado em projeto.
- **Cura do Prisma Grauteado:** Após o grauteamento, o prisma deve ser curado de forma adequada, protegendo-o da perda excessiva de umidade e de danos mecânicos, por um período mínimo de 7 dias, ou conforme o plano de cura do graute.
Critério de aceitação de prisma cheio: - Resistência à compressão individual do prisma deve ser maior ou igual a 0,85 f_p_k,graute. - Média das resistências de um lote de prismas (3 unidades) deve ser maior ou igual a f_p_k,graute. - Onde f_p_k,graute é a resistência característica à compressão da alvenaria grauteada, especificada em projeto.
Cura, Transporte e Ensaio: Fatores Críticos
A moldagem é apenas o primeiro passo. A cura adequada é fundamental para que o prisma atinja sua resistência potencial. Os prismas devem ser mantidos em ambiente úmido e protegido de intempéries, com temperatura controlada, por um período mínimo de 7 dias, ou conforme a norma e o plano de cura da argamassa e graute. A NBR 16868-3 indica que a cura deve ser preferencialmente em câmara úmida ou em local coberto, com umidade relativa superior a 90% e temperatura entre 20°C e 26°C.

O transporte dos prismas para o laboratório de ensaios é outro ponto crítico. Devem ser manuseados com cuidado extremo para evitar trincas ou danos que comprometam a integridade estrutural do corpo de prova. A norma recomenda que o transporte ocorra apenas após o prisma ter adquirido resistência suficiente, geralmente a partir dos 7 dias de idade, e que sejam protegidos contra impactos e vibrações.
No laboratório, os prismas são capeados para garantir superfícies planas e paralelas, e então ensaiados à compressão em prensa universal, seguindo as taxas de carregamento e procedimentos da NBR 16868-3. Qualquer desvio nessas etapas pode invalidar o ensaio.
Checklist para Garantir a Qualidade da Moldagem de Prismas
- **Equipe Qualificada:** O responsável pela moldagem deve ser treinado e conhecer os requisitos da NBR 16868-3.
- **Materiais Representativos:** Utilizar os mesmos blocos, argamassa e graute (se aplicável) da obra, com as mesmas características de traço e consistência.
- **Ferramentas Adequadas:** Ter à disposição colher de pedreiro, nível, prumo, trena, desempenadeira, e vibrador (para prismas cheios).
- **Base de Moldagem:** Assegurar que a base seja rígida, plana e limpa.
- **Dimensões do Prisma:** Respeitar a altura mínima de 2 fiadas e a relação altura/menor dimensão entre 2 e 5.
- **Espessura e Preenchimento das Juntas:** Garantir uniformidade e conformidade com o projeto.
- **Alinhamento e Prumo:** Verificar constantemente o alinhamento e prumo das fiadas.
- **Cura no Canteiro:** Proteger os prismas da desidratação excessiva e de danos mecânicos, mantendo-os úmidos e em local sombreado.
- **Identificação:** Identificar cada prisma de forma clara e indelével.
- **Transporte:** Realizar o transporte para o laboratório com o máximo cuidado, protegendo os prismas contra impactos e vibrações.
- **Documentação:** Registrar todas as etapas da moldagem, cura e transporte em diário de obra ou formulário específico.
A atenção a esses detalhes na moldagem e controle dos prismas é um investimento direto na segurança e durabilidade da edificação. O controle tecnológico da alvenaria estrutural não é um mero protocolo, mas uma ferramenta indispensável para garantir que o que foi projetado seja efetivamente construído e atinja o desempenho esperado. Falhas nessa etapa podem custar muito mais caro no futuro, seja em retrabalhos, reforços estruturais ou, no pior cenário, em acidentes. Certifique-se de que sua equipe e seus fornecedores sigam rigorosamente a NBR 16868 em todas as etapas.