21 de agosto de 2026 · 5 min de leitura
Matchbox (KAAN Architecten): projeto de uso misto e o desafio da integração
Análise do Matchbox, um edifício de uso misto do KAAN Architecten, destacando os desafios e soluções para a integração funcional e estrutural em projetos complexos.
Projetos de uso misto representam uma complexidade inerente, onde a coexistência de funções diversas — residencial, comercial, institucional — exige soluções integradas de projeto e execução. A segregação ou a justaposição inadequada de usos pode gerar conflitos operacionais, impactar o desempenho da edificação e, em casos extremos, comprometer a viabilidade do empreendimento. O edifício Matchbox, projetado pelo KAAN Architecten em Roterdã, serve como um estudo de caso relevante para explorar como essas integrações são gerenciadas, desde a concepção arquitetônica até a documentação técnica que garante sua construção.
A complexidade funcional de um uso misto
No Matchbox, a sobreposição de diferentes programas – um teatro, escritórios e apartamentos – impõe desafios de zoneamento, acústica, acessibilidade e estruturais. Cada função tem requisitos específicos de carga, pé-direito, ventilação e iluminação. A articulação dessas demandas em um único volume edificado exige um planejamento rigoroso desde as etapas iniciais do projeto. O memorial descritivo, nesse contexto, precisa detalhar não apenas os materiais e sistemas construtivos, mas também a lógica por trás das escolhas que viabilizam a convivência dos diferentes usos.
- Identificação clara das zonas de uso e suas interfaces.
- Especificação de sistemas de vedação e isolamento acústico entre as unidades funcionais.
- Definição de rotas de acesso e circulação vertical e horizontal segregadas ou compartilhadas, conforme a necessidade de cada uso.
- Dimensionamento de infraestruturas (elétrica, hidráulica, AVAC) com capacidade e flexibilidade para atender às cargas variáveis de cada uso.
- Previsão de expansão ou alteração de uso para áreas específicas, se aplicável, com a devida flexibilidade estrutural e de instalações.
Soluções estruturais para usos distintos
A estrutura de um edifício como o Matchbox é fundamental para a viabilidade do projeto. O teatro, com seus grandes vãos e cargas concentradas, exige uma solução estrutural distinta das lajes de escritórios ou dos pavimentos residenciais. A transição entre essas tipologias estruturais, muitas vezes com pilares e vigas de seções variadas, deve ser detalhada nas pranchas de projeto e especificada no memorial. A interoperabilidade entre o modelo arquitetônico e o estrutural, usualmente via IFC, é crucial para identificar conflitos e otimizar as soluções.
“O sistema estrutural será composto por estrutura mista de concreto armado e perfis metálicos. Os pavimentos do teatro (níveis 0 e +1) serão executados em concreto armado, com lajes nervuradas e vigas de transição para vencer os vãos de 20m. Os pavimentos de escritórios (níveis +2 a +5) e residenciais (níveis +6 a +10) serão em laje maciça protendida com pilares de seção reduzida, garantindo flexibilidade de layout. A transição entre as tipologias estruturais será realizada por vigas de baldrame no nível +2, absorvendo as cargas desaprumadas dos pilares residenciais.”
Desafios de fachada e desempenho térmico/acústico
A fachada de um edifício de uso misto não é apenas uma questão estética; ela deve responder às demandas de cada função interna. A seção do teatro, por exemplo, pode exigir maior isolamento acústico e controle de luz do que as áreas de escritório ou residenciais. Isso se traduz em escolhas de materiais, sistemas de vedação e aberturas que variam ao longo da elevação. A norma de desempenho (NBR 15575) para as unidades residenciais é um ponto de partida, mas as áreas comerciais e institucionais podem ter critérios ainda mais rigorosos, que devem ser especificados detalhadamente.
- Especificar o desempenho acústico da fachada para cada zona funcional (ex: teatro com Rw > 50 dB, residencial com Rw > 30 dB).
- Detalhar o sistema de brises ou sombreamento para controle solar e térmico, considerando a orientação e o uso do ambiente.
- Definir a estanqueidade da fachada à água e ao ar, com testes de desempenho em laboratório ou em campo.
- Garantir a manutenção e limpeza da fachada, com acesso seguro para equipes e equipamentos.
Interoperabilidade e coordenação em BIM
A complexidade de um projeto como o Matchbox é um terreno fértil para a aplicação de metodologias BIM. A coordenação multidisciplinar é facilitada pela modelagem federada, onde os modelos de arquitetura, estrutura e instalações são integrados para detecção de interferências e compatibilização. A documentação gerada a partir do modelo BIM – plantas, cortes, elevações, quantitativos – ganha em precisão e consistência. A RRT ou ART do projeto deve refletir a complexidade e a abrangência das disciplinas envolvidas, garantindo a responsabilidade técnica sobre cada etapa.
A gestão de informações em um ambiente BIM permite que cada elemento construtivo seja associado a parâmetros como tipo de material, desempenho, custo e prazo de execução. Isso é particularmente útil para o quantitativo de materiais, que em um projeto de uso misto pode variar enormemente entre as diferentes partes do edifício. A extração automatizada desses dados do modelo BIM otimiza o orçamento e o planejamento da obra.

Detalhes construtivos e o memorial descritivo
A qualidade da execução em projetos de uso misto depende diretamente da clareza e detalhamento do memorial descritivo. Não basta listar materiais; é preciso especificar métodos de aplicação, critérios de aceitação e normas de referência. Em áreas de transição entre usos, como a junção entre o teatro e os escritórios, os detalhes construtivos de vedação, isolamento e acabamento são críticos e devem ser exaustivamente descritos para evitar falhas de desempenho ou patologias futuras.
“Para as lajes de transição entre o bloco do teatro e o bloco de escritórios, será executada uma camada de argamassa autonivelante de alta densidade (1800 kg/m³) com espessura mínima de 50mm, sobre manta acústica de borracha reciclada de 10mm de espessura, com densidade de 800 kg/m³. O conjunto deverá apresentar atenuação sonora ao ruído de impacto de L’nT,w ≤ 65 dB, conforme NBR 15575-3. A instalação será precedida por submissão de amostras e laudos técnicos do fabricante.”
Alvarás e licenciamento: particularidades do uso misto
O processo de obtenção de alvarás e licenciamento para edifícios de uso misto é, via de regra, mais complexo. Diferentes usos podem estar sujeitos a regulamentações distintas de zoneamento, segurança contra incêndio (Corpo de Bombeiros), acessibilidade e impacto de vizinhança. É fundamental consultar o Código de Obras e o Plano Diretor do município desde o início do projeto, para antecipar exigências e evitar retrabalhos.
- Verificar as permissões de uso e ocupação do solo para cada função pretendida, conforme a legislação municipal.
- Atentar para as exigências de estacionamento, carga e descarga, e áreas de serviço específicas para cada uso.
- Coletar os laudos e aprovações de todos os órgãos competentes (bombeiros, vigilância sanitária, concessionárias) de forma coordenada.
- Preparar um memorial descritivo específico para o processo de licenciamento, destacando a conformidade com as normas e regulamentos aplicáveis a cada tipo de uso.
A execução de um projeto de uso misto como o Matchbox exige, portanto, não apenas criatividade arquitetônica, mas uma profunda compreensão das implicações técnicas de cada escolha. A documentação técnica precisa e detalhada é a ponte entre a concepção e a realidade construída, garantindo que a visão do projeto se materialize com o desempenho esperado e em conformidade com as exigências legais.